Cultural - Personalidades
Solano Trindade - Um Poeta e sua Luta (1908 - 2008)
André Borges
Nascido em Recife, no bairro São José, Francisco Solano Trindade já encontrou os negros gozando de relativa
liberdade outorgada pela princesa Isabel, filha de D. Pedro II, mas na verdade, conquistada pelos lutadores
abolicionistas, entre os quais se destacaram Luis Gama, em São Paulo, o Tigre da Abolição, o negro campista
José do Patrocínio e Joaquim Nabuco. Mas os negros ainda eram vítimas de novos grilhões: o preconceito
racial, a pobreza, os obstáculos à ascensão social, a existência nas favelas e mocambos, o subemprego, pois
o negro saíra da mão-de-obra não paga na escravidão à mã-de-obra mal paga nas subtarefas das cidades.
Se vivo estivesse, o poeta negro Solano Trindade completaria 100 anos em 24 de julho deste ano. Intelectual
ativo e ardoroso defensor do povo, Solano era descendente de escravos, do que aliás muito se orgulhava.
Foi um dos mais brilhantes continuadores da luta de libertação dos negros, iniciada pelo comandante heróico
Zumbi dos Palmares.
Filho de sapateiro e de uma doméstica, cedo Solano descobriu a sua vocação de poeta, de defensor do povo e
da sua cultura, razão pela qual é considerado como um dos mais importantes poetas da negritude brasileira
contemporânea, tendo seu nome edificado grandemente a luta e a valorização do negro na sociedade brasileira
e internacional.
Ativista do Movimento Negro, politicamente consciente, Solano Trindade manejou a cultura como um instrumento
de luta. Foi um dos fundadores da Frente Negra Pernambucana, por ter entendido em sua participação política
o quanto se desenvolvia uma política racista no Brasil, embora bastante camuflada. Cria também o Centro de
Cultura Afro-Brasileira, para a divulgação de artistas negros. É nesse momento que publica seu livro
"Poemas Negros". Dando fundamento concreto a seu nome profético Solano ("vento forte", na África), participa
do Primeiro (Recife - 1934) e do Segundo (Salvador - 1935) Congresso Afro-Brasileiro.
Em busca de maiores espaços, nos quais pudesse expandir suas várias atividades, antes de vir para o Rio de
Janeiro, Solano rolou pela Bahia, Belo Horizonte e Rio Grande do Sul, onde fundou, na cidade de Pelotas (1940),
um grupo popular que seria o embrião do Teatro Folclórico Brasileiro e do Teatro Popular Brasileiro, por
ele criados no Rio de Janeiro em 1943 e 1949, respectivamente. Em São Paulo, implantou um pólo do Teatro
Popular Brasileiro.
Solano Trindade morreu no dia 19 de março de 1974 ao lado de sua mulher, Margarida Trindade, no Rio de Janeiro.