Lélia Gonzalez viveu intensamente a história política e cultural brasileira. Mineira de nascimento,
filha de um ferroviário negro e mãe de origem indígena empregada doméstica e penúltima de dezoito
irmãos, migra em 1942 para o Rio de Janeiro. Sua trajetória guarda pouca semelhança com a maioria
da população negra, pois ascende de babá a professora universitária.
Engajou-se na luta contra o
racismo e sexismo na década de 70, no Rio de Janeiro, ainda um período de forte repressão dos governos
militares. Pioneira nos cursos sobre Cultura Negra, o qual destacamos o 1º Curso de Cultura Negra na
Escola de Artes Visuais no Parque Lage. Esta escola foi também lugar de expressão de vários artistas e
de intelectuais negros.
Fez inúmeras viagens no Brasil e no exterior (EUA, países da África, da América
Central, do Caribe e da Europa) buscando denunciar o mito da democracia racial brasileira e o regime de
exceção em que Brasil sua meta era, enquanto intelectual e ativista, oferecer instrumentos práticos e
teóricos de desmonte das opressões vividas pela maioria da população brasileira.
Em sua trajetória acadêmica e militante, Lélia Gonzalez combinou teoria e prática política e esteve presente
na universidade e nos espaços de atuação política, tudo isso enquanto se graduava em História, Geografia e
Filosofia.
Foi professora de algumas instituições de ensino superior no Rio de Janeiro, chegando inclusive
a ser diretora do Departamento de Sociologia da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-RJ),
nos anos 90. Além disso, foi membro do Instituto de Pesquisa das Culturas Negras (IPCN), uma das fundadoras
e membro da Comissão Executiva Nacional do Movimento Negro Unificado (MNU), entre 1978 e 1982. Participou do
Grêmio Recreativo de Arte Negra e Escola de Samba Quilombo e foi co-autora, com Candeia, do enredo "90 Anos
de Abolição", apresentado pela escola em 1979.
Em 1983 fundou, em conjunto com outras mulheres negras, o Nzinga - Coletivo de Mulheres Negras. Entre 1981 e
1986, militou no Partido dos Trabalhadores (PT), sendo parte do seu Diretório Nacional entre 1981 e 1984.
Foi candidata a deputada federal em 1982. Em 1986, estava no Partido Democrático Trabalhista (PDT), por onde
se candidatou como deputada estadual, conquistando uma suplência.
Como intelectual, Gonzalez elaborou pontos importantes para o desenvolvimento de um pensamento político negro
e feminino/feminista. A sua formação nas ciências sociais, História e Filosofia lhe permitiu pensar a questão
racial sob diversos aspectos, igualmente enriquecidos pelo seu envolvimento com o Candomblé e a Psicanálise.
Foi com base nesta que Lélia abordou questões diferenciadas na compreensão da condição das mulheres negras
na sociedade brasileira, aplicando conceitos de Freud e Lacan para avaliar aspectos presentes na cultura
brasileira que são sintomáticos do racismo e do sexismo.
Um outro ponto de destaque no conjunto da sua obra
foi a formulação da categoria da “amefricanidade”, que serviria para definir a experiência dos descendentes
de africanos tanto no Brasil como em outra parte das Américas, destacando as elaborações culturais, como a
linguagem, por exemplo.
Lélia Gonzalez, historiadora, antropóloga e filósofa, morreu de problemas cardíacos aos 59 anos.
Fonte: Texto adaptado dos sites Mundo negro e Afirma Brasil.
Fotos: Januário Garcia