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"A maior de todas as virtudes é o amor.
Neste mundo que repousa sobre a força, a tirania e a violência,
tende como missão seguir o caminho do amor;
descobrireis assim que o amor, desarmado, é a força mais poderosa do mundo."

Martin Luther King
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João Cândido
O Mestre-Sala dos Mares
Aldir Blanc

Há muito tempo nas águas da Guanabara
O dragão do mar reapareceu
Na figura de um bravo feiticeiro
A quem a história não esqueceu
Conhecido como o navegante negro tinha a dignidade de um mestre-sala
E ao acenar pelo mar na alegria das regatas
Foi saudado no porto pelas mocinhas francesas, jovens polacas e por batalhões de mulatas
Rubras cascatas
Jorravam das costas dos santos entre cantos e chibatas
Inundando o coração do pessoal do porão que a exemplo do feiticeiro gritava então:

Glória aos piratas
As mulatas
As sereias
Glória a farofa
A cachaça
As baleias
Glória a todas as lutas inglórias que atravéz da nossa história não esquecemos jamais
Salve o navegante negro que tem por monumento as pedras pisadas do cais
Mas salve
Salve o navegante negro que tem por monumento as pedras pisadas do cais
Mas faz muito tempo
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Cultural - Personalidades
João Cândido - Almirante Negro
Nascido na então Província do Rio Grande do Sul, Encruzilhada do Sul, 1880 filho de João Cândido Felisberto e Inácia Felisberto, João Cândido Felisberto alistou-se na Marinha do Brasil em 1894, aos 13 anos de idade, fazendo a sua primeira viagem como Aprendiz de Marinheiro.

Em 1908, João Cândido foi para a Inglaterra, para acompanhar o final da construção de navios de guerra encomendados pelo governo brasileiro, onde tomou conhecimento do movimento realizado pelos marinheiros britânicos entre 1903 e 1906, reivindicando melhores condições de trabalho. De volta ao Brasil, encontrou os marinheiros revoltados com a alimentação estragada, os trabalhos pesados e com a humilhação dos castigos corporais, os quais se revoltaram na madrugada de 22 para 23 de Novembro de 1910 ele então liderou a Revolta da Chibata.

Na época, a Marinha de Guerra brasileira estava dentre as mais fortes do mundo. Já o tratamento dos marinheiros repetia as piores tradições: de um lado, da própria escravidão brasileira e, de outro, de diferentes esquadras (a começar pela inglesa), que faziam da chibata um hábito cotidiano.

João Cândido Felisberto, gaúcho, filho de escravos, liderou a revolta pela dignidade humana em nossa marinha de guerra e em nosso País.

Duvidava-se que marinheiros semi-analfabetos conseguissem manobrar uma das mais potentes esquadras do mundo. João Cândido não apenas realizou tal feito, como ainda o fez de maneira perfeita, do ponto de vista da guerra naval. Daí que o título de “Almirante Negro” lhe caia perfeitamente.

Sob o seu comando, em resposta ao castigo do marinheiro Marcelino Rodrigues de Menezes com 250 chibatadas ao rufar de tambores, amotinam-se as tripulações dos encouraçados Minas Gerais e São Paulo, levando à execução de alguns oficiais, após renhida luta. Apoiam o movimento os cruzadores Barroso e Bahia. Mais de 2000 homens participam. Bombardeia-se a cidade do Rio de Janeiro, que é mantida durante cinco dias sob os canhões dos revoltosos.

O ultimato enviado ao Presidente da República, Hermes da Fonseca, representa um marco na luta pela dignidade de nosso povo:

"Nós marinheiros, cidadãos brasileiros e republicanos, não podendo mais suportar a escravidão na Marinha Brasileira, a falta de proteção que a Pátria nos dá, e até então não nos chegou, rompemos o véu negro, que nos cobria aos olhos do enganado e patriótico povo. Achando-se todos os navios em nosso poder, tendo a seu bordo prisioneiros todos os oficiais... Reformar o código imoral e vergonhoso que nos rege, a fim de que desapareça a chibata, o bolo, e outros castigos semelhantes; aumentar o nosso soldo... educar os marinheiros que não têm competência para vestir a orgulhosa farda... Tem V.Excia, o prazo de 12 horas para mandar-nos a resposta satisfatória sob pena de ver a pátria aniquilada... (assinado) Marinheiros."

A população do Rio de Janeiro apoia os revoltosos e o governo Hermes da Fonseca, recém-empossado, não tem condições de reagir. No dia 25 de Novembro o Congresso, apressadamente, aprova as reivindicações dos marujos, incluindo a anistia. João Cândido, confiando nessa decisão, resolve encerrar a rebelião, recolhendo as bandeiras vermelhas dos mastros. Segundo Oswald de Andrade, a rebelião teria "o mais infame dos desfechos": três dias depois, o Ministro da Marinha decreta a expulsão dos líderes rebeldes. Os marinheiros tentam reagir mas o governo lança violenta repressão com dezenas de mortes e centenas de deportações. João Cândido é preso.

Depois da revolta, o Almirante Negro permanece preso por 18 meses, em prisão subterrânea, sob protesto de políticos como Rui Barbosa. É internado em hospital de alienados, novamente preso e solto, após alguns anos. Tuberculoso, consegue restabelecer-se e sobreviver como vendedor do mercado de peixes da cidade do Rio de Janeiro, onde morre em 1969, sem patente e na miséria.

A revolta da chibata ocasiona o primeiro caso de censura imposta a um filme brasileiro, "A Vida de João Cândido", de Alberto Botelho, que teve proibida sua exibição em 1912. A memória da saga de João Cândido continuaria a ser severamente reprimida em outros episódios semelhantes.

O povo e os artistas brasileiros mantiveram, porém, viva a lenda deste herói. Como na música "O Mestre-Sala dos Mares", letra de Aldir Blanc, interpretada por Elis Regina e João Bosco, na qual João Cândido é lembrado como "o navegante negro que tem por monumento as pedras pisadas do cais".

É a hora da nação honrá-lo, inscrevendo seu nome no livro dos heróis da Pátria.
Conselho Estadual dos Direitos do Negro
Secretaria de Estado de Assistência Social e Direitos Humanos