Cultural - Cultura Afro-Brasileira
Carta à Mãe África
Ricardo Viana
Ah, mãe África! Como estás?
Já se vão quase meio milênio que de seu seio fui extirpado.
Ah, mãe, não tive tempo de te mandar notícias. Fora uma viagem longa, amontoados nos tumbeiros,
inerte de doer os ossos, pensava o quanto era bom correr livre por tuas savanas.
Ah, mãe, durante essa viagem apocalíptica, mais da metade de teus filhos morreram, ora por
suicídio, ora jogados ao mar quando se rebelavam ou mesmo de saudades de ti.
Mãe, pensamos em orar juntos, mas como uma torre babel, não nos entendíamos. No meu silêncio
clamei aos Orixás, mas não me ouviram em meio aquela orquestra dantesca de gemidos.
Aqui, mãe, nesta terra iria aprender as coisas da fé, ganhei um nome, já não sou Zumbi, sou Zé da Silva,
trocado por açúcar fui moeda viva cunhada à ferro e fogo com a efígie do meu dono e da fé católica.
Ah, mãe, nos tiraram a alma, quero dizer, quase perdemos nossa cultura. Submetidos a toda sorte de
sofrimentos, muitos dos meus irmãos não viveram por mais de um ano.
Num Domingo ensolarado, mãe, uma princesa enviada pelo pai Orixá parecia pôr fim ao nosso suplício, mas
não assinou nossa carteira de trabalho, deixando hoje parte de teus filhos do pai Brasil, que ajudamos a crescer,
desamparados. Somos 70% em média de semi-analfabetos, favelados, presidiários entre outras humilhações.
Ah, mãe, termino esta pedindo para não esquecer de mandar notícias dos meus irmãos da Etiópia, Somália. Creio
que dias melhores virão e viveremos numa verdadeira Democracia Sócio-Racial porque o grito de Zumbi ecoa dentro
de nossa esperança... Graças a Jesus, nossa alma - Cultura - sobreviveu.
Axé a todos, mãe!