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Abolição Inconclusa
Paulo R. dos Santos*
Hoje, 13 de maio de 2008 completam-se 120 anos que o Brasil "aboliu a escravatura", marco na consagração da Lei Áurea,
na figura imperial, mas sensível, da princesa Isabel. Foi das mais relevantes conquistas na flexibilização sócio-racial.
Mas, diferentemente dos Estados Unidos, onde houve indenização de terras e mulas, aqui sobrou relento e desemprego.
Coube aos libertos, independentemente da diáspora com a divisão das famílias, organizarem-se religiosa, política e
culturalmente, sob mutilações e vidas ceifadas, na luta por cidadania e inclusão social.
Mesmo assim, após as conquistas do voto universal, do crime inafiançável de racismo, das liberdades religiosas, do
Decreto-lei 4228/2002 para empregabilidade pública, assim como da Lei 10.639/2003, de obrigatoriedade do ensino da
cultura afrobrasileira, transformada em Lei 11.645/2008 para a inclusão da cultura indígena, e ainda do sistema de
cotas para as universidades públicas, assistimos, personalidades, se não racistas, ainda insensíveis às ações
afirmativas que envolvem, conforme o modelo de inclusão, discriminação positiva.
Com 12%, os afroamericanos organizaram-se culminando nos direitos civis da década de 60, sob as lideranças de
Luther King e Malcolm X. Hoje, podem disputar postos-chaves. É o caso do senador Barak Obama, que está dando
credibilidade àquele processo eleitoral, na disputa com as dinastias Clinton e Bush, constituindo-se em
um potencial fato novo.
O legado de Zumbi dos Palmares no Brasil está se realizando com as conquistas dos afrodescendentes e o 20 de
novembro, Dia da Consciência Negra, quando ele foi assassinado em 1695, é nova realidade, que, aliada a futuras
conquistas, fará concluir a abolição, alçando o Brasil pleno de inclusão e, aí sim, uma democracia racial.
Artigo publicado no site "O Dia Online", de 13 de maio de 2008.
* Presidente do Conselho Estadual dos Direitos do Negro (CEDINE)